Bar das Letras Solange Di Lido

Viver

Viu o olhar desejoso do marido para o bolo ainda quente saindo da forma. Pensou que ele não aguentaria esperar que esfriasse e, generosa, cortou um belo pedaço e ofereceu, cheia de amor: “Pegue querido, coma!”

Sorriu para si mesma pensando como existem coisas pequeninas que completam o dia! “Não é mesmo? “, respondeu para si mesma. Deixou o marido na cozinha a guerrear com o calor do bolo e tentou encontrar o cachorro que gania em algum ponto do quintal. Sabia da sua mania irritante de caçar guaxinins e como certeza havia encontrado um mais esperto que ele, daí sua agonia em continuar a latir para o buraco rente ao muro. Pensou na vida do cachorro e nas suas pequenas alegrias e desistiu de convence-lo a desistir. “Ora! Que mal faz?”

Havia dias pensava nas coisas com mais simplicidade. Lembrou com desdém da complexidade que a acompanhou durante toda a vida e percebeu, novamente, quanto tempo perdeu em minúcias desnecessárias, em averiguações exorbitantes, em julgamentos tiranos.

É verdade. Estava mudada. Não tinha certeza desde quando mas mudou. Havia coisas mais importantes a fazer do que perder tempo com ninharias. Preferia gastar duas horas do seu tempo a assistir a algum filme dos anos cinquenta do que se lamentar com a vizinha sobre o emprego que não tinha, sobre o carro que não poderia comprar, sobre os filhos que se foram, crescidos e sedentos pelo futuro.

Não poderia mais ser aquela mulher tensa. Não poderia mais usar seus pensamentos para coisas superfluas e desgastantes. Estava mudada e a cada dia tinha certeza de como era mais feliz assim. Olhou novamente para suas rugas no belo rosto e pensou como era bonita! Ajeitou os cabelos, passou um pouco de batom na boca ainda sensual e voltou para a cozinha a abraçar o marido, pronta a viver.

Você Também Pode Gostar

Sem Comentários

    Deixe uma Resposta