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Verdades Alencarinas

Falar em Praia de Iracema me traz de volta, além das lembranças de minha infância rica em festejos, as noites quentes de Fortaleza, embaladas pelos chopinhos gelados dos barzinhos lindos e bem decorados que ficavam em frente ao Estoril.

Eram barzinhos de várias culturas, numa mistura semelhante às saias rodadas das baianas do nosso Pelourinho.

Carlo e eu sentávamos ali enquanto víamos grupos passear de lá pra cá, de cá para lá, como o barco que embalou o amor nos tempos do cólera.

Era uma multidão de meninos, crianças, moços e moças sem pressa de envelhecer, velhos coloridos, senhoras adornadas com artesanato da terra, homens garridos em seus chapéus charmosos, enfim, gente de todo lugar do mundo, que vinham e iam num balé interminável.

Comíamos, bebíamos, ríamos, insuspeitos de que aquele paraíso um dia se findaria.

Por que ali, as sombras do mal já se esgueiravam sórdidas por entre as velhas árvores. O tilintar das moedas reais e dos papéis de cobre e esverdeados já pesavam nos pratos de alguns. Não se adivinhava, entre um sorriso e outro, que o mal já era tradição na infância, que o mal era amigo, era conhecido, que o mal era freqüentador de todas as cores e de todas as vestes. Não se adivinhava que o mal falava todas as línguas do mundo, sem distinção nenhuma.

Mesmo assim, apesar de termos passado algum tempo em Milão, junto à nossa família italiana, a saudade das tardes quase noites, pintadas de luzes amarelas e sonorizadas pelo dlim dlim dos copos brindando não nos abandonava.

Mesmo com meu amor incansável pela bela Itália, pela terra do meu marido, pelo seu vinho, por suas pedras luzidias e seu pão, por seu glamour e principalmente por sua antiguidade, não deixei de amar este pedacinho do céu…

Reconstruir cada pedaço daquele céu significará para nós mais um motivo para permanecermos aqui e driblar minha saudade de Milão ao som das marés defronte ao antigo Cais…

Sem medo de ser feliz.

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