Bar das Letras Martiniano Bezerra Neto

Reminiscências de um Retirante

Primeira pescaria

Menino véi, morando temporariamente na casa do seu avô  (vovô!!!) (berço de nascimento seu , de seus irmãos e primos)na  Lagoa Comprida – Alto Santo, casa edificada numa pequena elevação de onde se avistava não apenas a vazante, linda, com aquele carnaubal quase sempre povoado por aves coloridas e ruidosos como maracanãs, periquitos  jandaias ,  via-se também boa parte da lagoa.

Organizada uma pescaria pelos moradores da redondeza, ao final da qual os pescadores se reuniam para a partilha dos peixes capturados , eram muitos os pescadores, uns empunhando tarrafas, quixós, landuás, uma festa , aquela gente toda empenhada na captura dos pescados: Trairas, Curimatãs, Pirambebas, carás etc… o menino véi desce até a lagoa, no “beiço” da qual encontra um quixó véi abandonado, faltava-lhe uma tala, apodera-se do quixó véi e sai lagoa a dentro, kxo…kxo…kxo, quando de repente, sentindo forte vibração, associado a um ruído forte,  bralalala, percebe ter capturado um peixe e quando se dispõe a introduzir as mãos no quixo para retirar o peixe, alguém fala, menino espera aí, pode ser uma piranha, um pescador à sua volta se aproxima, retira o peixe do quixó, um belo exemplar de traíra, com uma paulada na cabeça mata o peixe e lhe entrega, enquanto lhe diz, bonita traíra meu filho.

Que partilha que nada, aquele peixe, o primeiro da carreira daquele moleque foi levado para a rua, como chamávamos e transformado numa bela refeição na casa tio Josá onde  residia durante a semana para ter acesso a escola, que orgulho!!!

Viagem com o pai

Saindo de Olho d’água Grande – Caririaçú , seguia a frente em seu cavalo bem arreado o pai, atrás , o menino véi montava o belo burro, O MELÃO, êh, Melão! Boa lembrança, saudades, seguiam para o Joazeiro por aqueles caminhos íngremes, tortuosos, sombreado por uma vegetação pouco expeça, num eterno subir e descer aquelas grotas, viajão, era como se estivessem indo para outro mundo, na verdade era sim, outro mundo… O pai seguia a frente e a certa altura começou assoviar uma música qualquer, o menino véi, sambudo, imitando o pai, seu ídolo, começa soprar tentando acompanhar o pai que entoava a música ao som do assobio fora de tom, todo convencido. O pai volta-se para trás e fala, cala a boca moleque. Nunca esqueci, pai.

Farinhada

Aí pelos seus 7 anos de idade, também na localidade Olho d’água Grande, num pequeno vale, circundado pela serra de Santa Maria, morava nosso herói, na companhia de seus pais, sua irmãs Socorro e Eridan, numa casinha de alvenaria próxima das casas de seus avós, de sua tia Amélia, sua primeira professora e dos tios Floriano,  José e Joaquim, esse era o seu universo, ambiente ainda complementado por uma casa de farinha onde a família realizava suas farinhadas.

Nessa época, participou ativamente da farinhada. Montado no velho melão, burro bonito, equipado com cangalha e caçoá, subia a serra e de lá descia carregado de mandiocas que eram despejadas no meio das raspadeiras, varias mulheres que munidas de facas raspavam a mandioca que eram em seguida triturada em contacto com a bola, um rolo de madeira,  serrilhado que girava pela ação de trabalhadores que giravam uma grande roda, ligada a bola por correias, fazendo-a girar. Obtinha-se aí a massa que era prensada de forma a expelir a água, secando a massa que em seguida era torrada em um forno muito grande por trabalhadores que manobravam com maestria um rodo de madeira. Simultaneamente, assavam-se beijus e tapiocas que eram deliciados pelos trabalhadores, ora acompanhado por um café quentinho, ora por um “taquim” de rapadura. Saudade danada, essas cenas acompanharam o menino véi ao longo de toda a sua trajetória ligando-o  fortemente a suas origens ao seu torrão.

Interessante dizer da importância desses fatos na formação do menino véi que um dia por obra do destino, ou quem sabe do próprio Deus tenha deixado tudo para trás e seguido o caminho que lhe era destinado. Bom mais isso já são outras lembranças.

 

Martiniano Bezerra Neto

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