Paixão Lusitana

A conheci na pós adolescência, lá pelos 17 anos. Era irmã de dois colegas de colégio, embora ela mesma estudasse em outra escola, essa gerida por religiosas dedicadas ao ensino de moças.

Bonita, pele muito alva e ornada com lindos e pequenos olhos escuros, na minha cabeça de jovem não concebia ter vindo do continente africano, onde em filme víamos seus naturais sempre tipo de beleza, o da raça negra. Mas Moçambique, de onde emigrara com a família, havia sido até então colônia portuguesa, e descobri então o porquê daquele sotaque e daquela brancura.

Apesar de cidadãos portugueses, ao deixarem a ex-colônia, optaram por vir para o Brasil, trazendo hábitos africanos e acento lusitano, que me cativaram. Não só a mim, mas a toda rapaziada próxima, sendo sempre motivo de comentários e desejos juvenis.

Apesar de proximidade com a família, a qual freqüentava sob a meia-desculpa de recapitular a lição do dia com o irmão, nunca ousei revelar minha paixão pela moça de sonho e de neve, que me fazia delirar, com seu jeito meigo, e principalmente aquele sotaque d’além-mar.

Mudei de colégio, de amigos, de paixões. Nunca mais a vi. Após muitos anos, já adultos, nos cruzamos em um shopping de Fortaleza. Como não me reconheceu, chamei-a pelo nome. A beleza da juventude se transformara em beleza da meia idade, porém aquele sotaque de cachopa portuguesa se fora, transformando sua voz na de uma conterrânea qualquer, e frustrando minha memória diante da bela mulher, agora sem o diferencial sonoro pelo qual me apaixonei na juventude.

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QUEM ESCREVE

ALTINO FARIAS

Brasileiro, 57 anos, curto carros antigos, boa música, praia e encontros com amigos para “bebemorar” a vida. Discutir e expressar ideias são grandes prazeres, e a escrita tem o dom de dar forma permanente ao que se pensa.

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