Bar das Letras Martiniano Bezerra Neto

Pai

Pai, há exatamente dois anos estamos vivendo a sua ausência. Foi no dia 10 de abril de 2004 que o senhor partiu, para essa longa viagem e nem sequer tivemos a oportunidade de dar-lhe um abraço afetuoso, nos despedirmos, pedir-lhe a benção como era o nosso costume, sempre que nos encontrávamos e toda a vez que nos despedíamos. Amanhã, como sabe, vou completar 60 anos de existência e dois anos sem a sua presença. Eu nunca imaginei, pai, mas o senhor nunca esteve tão presente em mim como nesses dois últimos anos. Tenho revivido nossa história, tenho lembrado trechos de nossas vidas e não tenho conseguido reter algumas lágrimas que sempre teimam em minar meus olhos nessas ocasiões.

Não pai, acho que não é tristeza, deve ser saudades, gratidão, pode ser também o reconhecimento da sua grandeza, do homem bom, caridoso e nobre que sempre foi. Pode ser a emoção de saber-me seu filho, ou quem sabe até da minha responsabilidade em continuar a sua obra.

Minutos depois de sua partida, eu estaria completando 58 anos idade. Momento exato dos seu 58 anos como pai. E eu sou testemunha meu pai, da sua luta, da sua dedicação, do seu sofrimento pela dificuldade em prover nosso sustento, em promover nosso crescimento físico e intelectual, palavra que sequer entendia direito o significado.

Trilhamos juntos esses 58 anos. Lembro-me perfeitamente da nossa vida no Ceará. Seu esforço, para muitos exagerados, na tentativa de conseguir melhores dias através do seu trabalho. Suas decepções pelo pouco ou quase nenhum resultado de tanto empenho, de tanta luta. A vida um tanto quanto nômade, hora morando no Alto Santo, hora no Cariri. Nossas viagens nos paus-de-arara, em lombos de burros, em carrocerias de caminhões carregados de rapadura… Sua penosa decisão de deixar a família. Naquele tempo minha mãe, minhas duas irmãs e um irmão, Rizo, não esse santo, mas outro que Deus levou ainda muito criança, pouco depois de chegar a Manaus e eu, na esperança de conseguir aqui o que a nossa terra nos negava. Nossa viagem de navio de terceira classe, nosso reencontro emocionante. Enfim pai, tenho tudo muito bem arrumadinho na minha memória.

O senhor não era um homem carinhoso. Tinha dificuldade em externar os seus sentimentos, nem era de muito diálogo com seus filhos, comigo, principalmente, pouco conversávamos (na minha infância), mas sei – por me dizer a minha mãe – quantas vezes à beira da minha rede, enquanto eu dormia, proferia frases como: “É muito feio esse menino”. Frase que eu sempre soube interpretar como de profundo carinho, não confessado.

Nunca vou esquecer, meu pai, daqueles momentos mais difíceis de nossas vidas, quando sem dinheiro necessário para as nossas despesas, o senhor tirava do bolso aqueles 500 réis e me mandava comprar meu caderno. Como vou esquecer que chegando do Ceará foi para o interior plantar juta, deixando-nos na cidade, eu e minhas irmãs para estudar? Viajar por meses a fio por esses rios, sempre perseguindo uma sorte que fugia a sua aproximação, sempre na busca incessante por melhores dias que não chegavam, pai.

Mas, finalmente quando o senhor já não esperava pai, finalmente o senhor encontrou a verdadeira felicidade, a recompensa pela vida digna, reta de homem bom e justo que Deus reserva a pessoas como o senhor e que nós esperamos também um dia merecer para juntos podermos desfrutar da vida que o senhor sempre se preocupou em nos dar, bastando para isso seguir seus passos e seus exemplos. Nossa gratidão eterna, meu pai.

 

Martiniano Bezerra Neto

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