Bar das Letras Paulo Roberto Coelho Ximenes

O Grande Salto

Foi numa manhã qualquer, e num mês qualquer do ano de 1962, no trampolim mais alto do Náutico Atlético Cearense, que eu me prontifiquei a um salto destrambelhado, só para impressionar uma aluna fardada do Colégio Santa Cecília. Eu devia contar onze anos, ela, talvez oito. Lembro-me do seu rosto diminuto e da expressão em seu olhar que me alugou a alma. Imaginem os instantes de heroísmo ou de pânico que antecederam ao meu primeiro salto.

As coisas funcionavam mais ou menos assim: quando um pirralho conquistava aquele trampolim, os olhos do Náutico se voltavam para ele; era como se abrissem as cortinas de um  espetáculo: se ele amarelasse e voltasse pelos mesmos degraus em que subiu, os meninos decerto zombariam dele, ou lhe aplicariam um apelido para o resto da vida; Amarelão, Zé do Medo, Calça Frouxa…

Quanto às meninas, sabe-se lá o que lhes iriam pela cabeça! Mas estranhamente se ele se despencasse lá de cima, ainda que se estatelasse n’água como um saco de batatas, não ouviria vaias e nem aplausos, e nem coisa alguma que lhe valesse notoriedade. Conformava-se o herói-menino com a possibilidade de haver a sua musa guardado em si um fio de admiração pelo instante de denodo.

Quando decidi encarar o bendito equipamento, travei a mais ferrenha batalha da minha vida, acrofóbico que sou. Num salto de paraqueda, o silêncio só é riscado pelo estalido do velame; e no meu salto do trampolim, pelo flash do arrependimento. Foi o olhar inquisitivo daquela menina bonita do Santa Cecília que me empurrou ao precipício – dois ou três segundos de queda-livre que me pareceram uma eternidade.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

Você Também Pode Gostar

Sem Comentários

    Deixe uma Resposta