Bar das Letras Romeu Duarte

Meu Jardim e Eu

Meu Jardim e Eu

À memória de Henrique Parente

 

Desde que soou o toque de recolher da pandemia que armei o meu cafofo na varanda aqui de casa, defronte ao jardim. É onde trabalho, escrevo, leio, ouço música, vejo filmes, faço as refeições, toco violão, bebo, descanso, vivo. Trata-se de uma estrutura em pallets de madeira, à moda de um estrado, sobre o qual coloquei um colchonete, uma colcha colorida e algumas almofadas. E é assim, feito um paxá moderno, que tenho escapado à covid-19. Foi ótimo ter feito as pazes com a morada, mas o melhor de tudo é acompanhar o caminhar dos dias, todo dia. Às vezes, é preciso diminuir o ritmo, dar uma pausa, uma meia-trava para compreender melhor a vida, cujo segredo está nas pequenas coisas. Exemplo: viver a sinestesia em todas as suas sensações, como agora…

Como acordo muito cedo, o tempo serve-me mais. Lembro de Ramón Gomez de La Serna: “Porque beijava lento, duravam-lhe mais os amores”. A passagem das horas, a variação de tons da luz solar, a mudança do clima, o vento solto deste junho quase julho, a chegada da noite, o prenúncio da madrugada. Já um assumido fiscal da natureza, vejo meu jardim, com seus jasmins, crótons gigantes, nins e buganvílias estendendo seus galhos, flores e gavinhas ao velho benjamin da rua num dialógico abraço vegetal. Não fosse o muro, ninguém saberia onde começa e termina esta minha pequena floresta urbana. De resto, há pimenteiras e outras plantas que, dizem, espantam e afugentam o mau-olhado. Não creio em bruxas, nem elas em mim, mas cautela é coisa boa.

Jardineiro do chão, aprendiz de Rubem Braga com o sinal trocado, observo os bichos que vêm dar com os costados aqui. Funcionários aplicados, todos têm seus turnos e horários. Vejo pássaros que há muito não via, como bicos-de-lacre e guriatãs. A algazarra dos papacuns em bando, fugindo dos gaviões. As muitas rolinhas substituem os faltosos pardais. Beija-flores multicores em sua sede de néctar. Legal é ver a carreira doida dos calangos e tijubinas para não virarem merenda nas garras da gata Sofia. Os insetos e seus afazeres na terra e no ar. O cachorro que não há faz-se presente no latido de um bem acolá. Em tudo, uma ordem natural em que cada ente tem o seu lugar. O sol brinca com a grade mudando sua sombra a cada segundo, o jogo sábio das coisas sob a luz.

Talvez o nome certo para tudo isso seja gentileza. Uma gentileza cósmica que o sujeito para entender tem que parar com tanta besteira e sentir a pulsação do planeta. Essa doçura em extinção é dom natural de algumas pessoas, sobre cujos ombros o mundo parece repousar. São poucas, cada vez menos, e tu eras uma delas. Esplêndido, fizeste do teu peculiar jeito de ser uma forma de arte, raro ourives das amizades. Quando chegavas era uma festa, aliás, eras uma festa móvel que iluminava e alegrava os ambientes e botava para correr a tristeza, o que não te impedia de ser verdadeiro e franco. Agora, quando as primeiras luzes noturnas se acendem e os animais se recolhem, faz silêncio no meu jardim, metáfora de mim. Deste meu canto, ergo um brinde a ti. Saudade…

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