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Bar das Letras Paulo Roberto Coelho Ximenes

O Silêncio do Poeta

À noitinha, na praia, a lua brilhou
Leiteando os contornos alquebrados
Até a salsugem se quedou ao prateado.
Uma gaivota ia passando… E voltou!

 

Um artista se enamorou de um violão
Um coqueiro chamou o vento pra dançar
O sol nem tinha mais hora pra chegar:
A fantasia se anteviu à ilusão!

 

Veio uma sereia rendida e enfeitiçada
A beleza em cada palmo se encravou
Acreditando que um sonho não se apaga

 

A poesia ali na praia se implantou
Um poeta assistiu a tudo e não disse nada…
Mesmo assim, a lua brilhou!

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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O Grande Salto

Foi numa manhã qualquer, e num mês qualquer do ano de 1962, no trampolim mais alto do Náutico Atlético Cearense, que eu me prontifiquei a um salto destrambelhado, só para impressionar uma aluna fardada do Colégio Santa Cecília. Eu devia contar onze anos, ela, talvez oito. Lembro-me do seu rosto diminuto e da expressão em seu olhar que me alugou a alma. Imaginem os instantes de heroísmo ou de pânico que antecederam ao meu primeiro salto.

As coisas funcionavam mais ou menos assim: quando um pirralho conquistava aquele trampolim, os olhos do Náutico se voltavam para ele; era como se abrissem as cortinas de um  espetáculo: se ele amarelasse e voltasse pelos mesmos degraus em que subiu, os meninos decerto zombariam dele, ou lhe aplicariam um apelido para o resto da vida; Amarelão, Zé do Medo, Calça Frouxa…

Quanto às meninas, sabe-se lá o que lhes iriam pela cabeça! Mas estranhamente se ele se despencasse lá de cima, ainda que se estatelasse n’água como um saco de batatas, não ouviria vaias e nem aplausos, e nem coisa alguma que lhe valesse notoriedade. Conformava-se o herói-menino com a possibilidade de haver a sua musa guardado em si um fio de admiração pelo instante de denodo.

Quando decidi encarar o bendito equipamento, travei a mais ferrenha batalha da minha vida, acrofóbico que sou. Num salto de paraqueda, o silêncio só é riscado pelo estalido do velame; e no meu salto do trampolim, pelo flash do arrependimento. Foi o olhar inquisitivo daquela menina bonita do Santa Cecília que me empurrou ao precipício – dois ou três segundos de queda-livre que me pareceram uma eternidade.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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Mesa de Bar

Os meus quarenta anos de continuado pisoteio pelos terrenos etílicos me credenciam  a defender a tese, segundo a qual, mesa de bar não seja local apropriado para os que pretendem passar a noite resolvendo os problemas do mundo ou desfilando azedumes pessoais.

Entretanto, como ocorre com todo ponto de vista consistente, aqui também há controvérsias; alguns contestadores lhe apontam o caráter liberal que contemple o  pleno acolhimento de toda sorte de assuntos – conquanto seja  território democrático por excelência.

Mas cá para nós, estou muito mais propenso a acreditar que ela tenha sido divinamente projetada para o trato das amenidades. E as amenidades não são, senão, bornais de ouro, porque põem água fria na fervura da vida.

Mesa de bar tem um pé na gandaia. Só lhe caberá, com mais propriedade, o brado feliz dos que sabem reverenciar a boa amizade e deixar ascender os bons fluidos;  além, é claro, de viajar com a música para aonde ela for.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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Manchete

Um dia na televisão,
Um monte de peixes apodreceu
Nas águas sujas de um riozinho triste
Pelas bandas da São Paulo Grande.

 

Um doidinho ensapatado
Resolveu garimpar o ouro
A prata, a dolomita, o urânio…
Qualquer coisa que findasse em dólar

 

Ah! Doidinho ensapatado!

 

Findou matando os peixes
A água,
O rio,
Infelizmente não matou a si mesmo.
E ainda me instigou nestes versos estressados…
Ó doidinho ensapatado!!!

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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La Perdita

Você me mandou ir embora
Mas eu não fui.
Não sei ir embora de você.

 

Antes eu preciso esquecer a lua
Apagar o sol
E secar o mar…

 

Preciso esquecer que você é vida
Lua,
Sol

E mar.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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Ir Embora

Você me mandou ir embora
Mas eu não fui.
Não sei ir embora de você.

 

Antes eu preciso esquecer a lua
Apagar o sol
E secar o mar…

 

Preciso esquecer que você é vida
Lua,
Sol
E mar.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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Evocação à Inspiração Poética

Eu queria tecer uns versos
Que falassem do amanhecer
Do sol risonho, cheio de graça
Correndo as matas do Araripe
Acordando os passarinhos

 

E que tivessem os tais versos
A leveza de um bem-te-vi
A alumbrar a flor-do-mato
E a mansidão de um riacho
Em qual leito – brando ato!
Morre a sede do quati

 

Mas eu preciso é fazer versos
Que alardeiem o desacato
De cada pau que a serra corta
De toda albugem e folha morta
Do fim do mundo à minha porta
De eu não ter mais pra aonde ir

 

Onde estão esses versos
Que incitam o refletir
Velando, talvez, um encanto
Ou a força cega de um pranto
Versos vazados em canto
Como eu nunca escrevi?

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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Confissão

Afronto, enfim, a hipocrisia
Tantos anos de disfarces e mentiras
Eu negando o calor maior que vira
Tu – alento meu de cada dia!

Se covarde fui, assim, ao me esconder,
Do desejo vil, afoito e proibido,
Eis-me aqui inteiramente arrependido
Do livre-arbítrio que, insano, fiz morrer.

É como um cão, que me agarro a estas linhas
Estrênuos versos, nus e aquartelados,
Que talvez nem cheirem a jasmim…

Mas te contarão eles, dos meus pecados
Das fantasias mais brejeiras e sem fim!
Dos beijos dependurados nas letras minhas.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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A Respeito dos Poemas que Fiz…

Embora seja a poesia a janela da alma, tem sido da alçada dos críticos literários a avaliação dos poetas e a classificação das suas obras por esse ou por aquele enfoque; e nisso, ao se escandirem rimas e versos, ao se esmiuçarem estilos e pontos-e-vírgulas, o que acabará por acontecer é a consagração de uns e a condenação de outros ao ostracismo, com alguma albarda para os poetas menores. Seriam os poetas menores aqueles que não obtiveram, no entender de outros, o luzeiro dos deuses intergalácticos da arte e da inspiração? É lícito se julgar um poeta? Na verdade, a sensibilidade de um homem se mistura à própria noção do infinito; ela provém  do brilho da estrela mais longínqua, e justamente por este fato, não há de vingar na terra uma só criatura apta a medir uma dor, ou a avaliar uma emoção.

 

Entretanto, admito a hipótese de que a empolgação tenha me induzido a tomar versos de assalto, com a mesma impetuosidade dos que, sem o lastro da musicalidade, atrevem-se a tocar violino. E aí, no pleno direito ao exercício da autocrítica, visto a carapuça que propriamente me cabe: rabisquei sim, grosas de versos às escâncaras no meu notebook. Alguns deles esbarrados na geometria implacável dos sonetos; outros banhados no meio-termo que o – nem tanto ao mar, nem tanto à terra – poderia suscitar. Há também os licenciosos e os selvagens como as onças pintadas: versos curtos, nus, disformes, gravitando em torno de idéias e de sentimentos imperceptíveis ao olho nu, e que se perderiam no oco do mundo – não fora a pujança de um pendrive. Por vezes, são afiados como o gume da guilhotina, noutras, devassos como um beijo – alavancados por impulsos ancestrais. Mas vem sempre ao meu encontro o que disse certa feita o iluminado poeta russo Vladmir Maiakovski (1893 – 1930): “Toda poesia é uma viagem ao  desconhecido”.

 

Uma coisa, entretanto, é certa: nenhum deles vai merecer uma estátua. Mas cada qual é parte de mim, e eu os valorizo justamente por isso.  São apenas meus versos, marcando territórios no chão da minha vida. E essa minha agarração pelos poemas, nem sei mesmo de onde veio; melhor seria eu atribuí-la ao atrativo e ao encanto das coisas mais simples e genuínas dessa vida, à necessidade perene das indignações, ao aluamento do amor, e às saudades e às lágrimas que vez por outra me assolam o caminho.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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A Poça D’agua

É só cair uma chuva mais demorada em Fortaleza, para isso mudar a feição da cidade. As águas tomam conta das calçadas, o trânsito fica embolado, o caos se estabelece na via pública.  A pé, não há como prosseguir; os compromissos se atrasam e os negócios se atrapalham. Que novidade! Vem de longe essa história: desde a minha meninice que a cada sereno, as ruas viram riachos. Vez por outra, ao abrir um guarda-chuva, eu automaticamente me recordo de certas cenas, como foi o caso dos semblantes esfogueados de quatro moças estudantes da Escola Normal Justiniano de Serpa, que esgoelando gritos de terror, davam-se as mãos a cada ronco de trovão; logo depois elas se desgrudavam e saíam saltitando entre uma poça d’água e outra até que novos estrondos as unissem novamente. Lembro-me também do que me aconteceu pelo final dos anos setenta numa esquina da Avenida Heráclito Graça, sob idênticas condições meteorológicas.

Naquele dia, sob nuvens cor de chumbo e no intervalo entre uma chuva e outra, vi-me amontoado a uma meia dúzia de transeuntes, os olhares fixos em direção ao semáforo enquanto um pouco à esquerda, no asfalto, quase à beira da calçada, uma poça d’água nos espreitava. Talvez o buraco (ou depressão no terreno) importasse meio palmo de profundidade por um metro de diâmetro. Os pneus dos carros passavam a quarenta ou a cinqüenta quilômetros por hora, “tirando um fino” nas suas bordas. Uma triscada ali liberaria um efeito irrefragável – um estardalhaço de água voando em todas as direções com razoável poder de alcance. Ser precavido não é pensar no pior. Ser precavido é ser precavido. Recuei, então, três passos sem tirar os olhos daqueles bólidos borrachudos cada vez mais próximos do desastre.

A vítima em potencial seria justamente o sujeito mais bem trajado do grupo, esbelto e alto, todo no linho branco, ruivo, cabelos encarapinhados, óculos à pincinê e barba pontiaguda no queixo, lembrando o Visconde de Sabugo do Sítio do Pica-pau Amarelo. Portava uma pilha de papéis e mantinha um celular grudado  ao ouvido, que àquela época era símbolo de status. A camisa de mangas compridas com suas abotoaduras douradas não escondia o relógio de aspecto caro, e também chamava a atenção, o cinto de couro combinando com a leve tonalidade marrom dos sapatos de bico fino. Qualquer um deduziria que se tratava de um granfino, cujo carro de luxo deu pane no aguaceiro.

Uma camioneta passou raspando.  Desta vez foi por um triz. Não me contive. Bati no ombro do cidadão, apontei para o perigo em e lhe disse: ”O senhor vai acabar se molhando se algum carro triscar nessa poça d’água. È melhor o senhor recuar um pouco!”. Não sei por que cargas d’água ainda me meto a ajudar a quem não conheço. A criatura fitou-me em silêncio, por uns três segundos como quem contempla um tonto. Vi desdém em seu olhar. Como é tosca e gélida a indiferença! Sem arredar um centímetro de onde estava, virou-se novamente para o outro lado, continuou ao celular, como se nada tivesse por acontecer. Nem ao menos se dignou a me esboçar um meio sorriso, que àquelas alturas seria menção de agradecimento. Fiquei sem jeito. Todos perceberam o meu desconforto. Doeu. Foi como se tivesse me dito: “vá cuidar da sua vida, moço, isso não é da sua conta!”

É acosso horripilante, o desprezo; e o instinto de defesa, um mecanismo arguto, pronto para arrebentar. Noutras palavras, é bem próprio do ente humano sentir dificuldade para aluir uma aspiração de castigo contra aquele que o afligiu. Assim, e do nada, surgiu-me o desejo mesquinho da vingança. Sim, esse condenável e desprezível sentimento às raias da violência,  que a gente precisa tanto fazer de conta que ele não existe, mas sabe perfeitamente que ele está ali, vivinho da silva, pronto para qualquer eventualidade. É só cutucar a onça com vara curta.

De que me adiantou a alma policialesca?  Só foi preciso um vil segundo de distração para que me escapulisse ao pensamento o atroz agouro: “Tomara que um pneu desses acerte bem no meio do buraco, pra dá um banho nesse deslumbrado!”.

Vapt! Imediatamente o fato se sucedeu! Um fusca conduzido por um elemento idoso (devia ir pelos seus oitenta anos!) cumpriu os meus votos com magistral punjança; não teve a destreza para fazer o desvio, e espalhou o precioso líquido para tudo quanto foi lado. O “visconde”, por conta de sua indolência levou um banho da cabeça aos pés. Papéis molhados, celular talvez danificado, óculos embaçados; a calça de linho branca, de tão encharcada, denunciava na inconveniente semitransparência, as cores aberrantes dos seus trajes menores. Ali, um palhaço ante o picadeiro. A platéia do outro lado da rua irrompeu em gargalhada; houve até quem puxasse uma vaia.  Espalhafato como esse, eu ainda não tinha visto.

O sinal abriu e seguimos em frente, uma penca de marmotosos, reféns da chuva e do trânsito. No próximo sinal fechado, o barba-de-bode deixando de lado o celular, manteve exagerada distância para uma poça d’água que de tão pequena e rasa não metia medo a ninguém. É a velha teoria do gato escaldado. Um adágio famoso cairia também ali como uma luva: “Seria cômico se não fosse trágico!”. Não sei se o que percebi naquele instante era uma onda solidária ao meu mais recente constrangimento, pois o semblante do grupo minguou para olhares esquivos, e tinha gente se espremendo para não cair no riso; pode ser também que seja fato absolutamente corriqueiro um acidente destrambelhado como aquele causar ânsia de riso em qualquer um que o tenha testemunhado.

O caso era que o cidadão volvido a si, mais parecia um varapau molhado.  Sabe-se lá o que lhe corria pela cabeça naquele momento cocho. Nunca vi um sinal vermelho tão demorado. De esguelha, ele arriscou um vago olhar na minha direção, mas evitei que nossos olhares se encontrassem. Deve ter ouvido do meu pronto silêncio: “Eu não lhe avisei?”.

Paulo Roberto Coelho Ximenes