Bar das Letras Romeu Duarte

BAIXA GASTRONOMIA – Só a Nata!

Odeio quando alguém diz: “esta nata está salgada”. Ora, nata salgada é um pleonasmo, assim como pneu de borracha, coqueiro que dá coco, café preto e torcedor do Fortaleza cafona. Como sou alucinado por esta parte gordurosa do leite, que se forma sedutoramente em sua superfície, por esta deliciosa pré-manteiga, temperada à base de cloreto de sódio e nada mais, vou-lhe aqui fazer o merecido elogio.Gosto de preparar os ovos do café da manhã usando uma farta colherada de nata e assisti-la desmanchar-se ao calor da frigideira. No pão carioquinha quente, vê-la cumprir o mesmo papel e servir de cama às fatias de presunto e queijo e aos ovos mexidos é coisa de cinema. Degustá-la em nacos mergulhados no cálido caldo de um belo feijão verde acompanhado de gordos maxixes e quiabos e pedaços de jerimum-caboclo, com generosas talagadas da água que passarinho não bebe, é experiência ultra-sensorial, sinestésica para dizer o mínimo. Devorá-la com ela fazendo o dressing de uma boa carne de sol, a bordo de uma farofa branca (cafofa) e de uma salada de tomates banhados em azeite, vinagre, sumo de limão e sal (vai gostar de sal assim…) é prazer inenarrável. Como é acepipe fundamental, pode também ser deglutida com uma boa goiabada cascão, de preferência mineira. Indico a nata da marca Caraúba, produzida na fazenda homônima, em Caucaia, uma propriedade rural que remonta ao século XVIII. Não é à toa que Eric Clapton, Jack Bruce e Ginger Baker chamaram de Cream a banda que formaram em 1966, já que eram, à época, a nata da nata em seus respectivos instrumentos. Ah, nata amada…

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