Bar das Letras Romeu Duarte

BAIXA GASTRONOMIA – Meu Querido, o Porco

Ah, porco, meu querido porquinho, és o mais injustiçado dos animais no mundo da gastronomia. Já fizeram de ti a imagem do demônio, há povos cujos cardápios não te contemplam, já foste acusado de trazer na tua tenra e rósea carne milhões de caroços e tênias, enxergam-te como um bicho imundo que só serve para tornar obesas as pessoas. Gostam tão pouco de ti que não te chamam mais pelo nome e sim de suíno, substantivo que odeio. Entretanto, és o animal mais deglutido em todo mundo, tendo alguns países, tais como Portugal, Espanha, Itália e Alemanha, te transformado em obra de arte gastronômica. Aqui em Pindorama, fazes um bruto sucesso no Sul e no Sudeste. Entretanto, neste alencarino pedaço, pouquíssima gente te considera. Difícil ver por aqui uma casa de pasto que tem no porco a sua pièce de resistance. Saudade dos sanduíches de carne de porco do Cervantes e do Bar do Mineiro, no Rio, da costelinha com ora pro nobis da D. Lucinha, em Belo Horizonte, e dos diversos acepipes porcinos da Casa do Porco, em São Paulo. Contudo, é a minha querida Sobral que salva a nossa pátria. No Restaurante do Aragão, logo na entrada da cidade, come-se a melhor costeleta de porco do universo. Se o Ceará tiver cinco pratos de renome, um certamente é este. Imaginem uma costeleta ampla e de corte duplo, com uns 5 centímetros de espessura, cozida e frita e servida com uma cafofa (farofa à base de água e que não vai ao fogo) preparada com manteiga da terra, cebola roxa, coentro e cebolinha, salada de batata com maionese caseira (cuja receita o proprietário não revela nem a pau) e rodelas (ui!) de tomate mergulhadas em sal, azeite, vinagre e limão. É de lamber os beiços e os dedos. Quando no IPHAN, em visita à Fidelíssima Cidade Januária, ia religiosamente ao estabelecimento com meus amigos Domingos Linheiro, Campelo Costa e Veveu Arruda degustar a iguaria. Na volta, levávamos quentinhas com o produto para deleite dos muitos esfomeados do Bar do Aírton. Era tiro e queda. Portanto, já sabem: uma vez na Princesa do Norte, é bater à porta do Aragão e encontrar a felicidade em forma de comida. Como dizia o Jarbas Passarinho, às favas os escrúpulos. Comer bem é ser feliz.

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