Bar das Letras Romeu Duarte

BAIXA GASTRONOMIA – Arroz, mais que companheiro

Já vi muita gente dizer: “esse rapaz aí é igual a arroz, só serve para acompanhar”. Além da evidente maldade no comentário viperino, há também o grande desconhecimento das propriedades gastronômicas desse magnífico cereal do ramo das gramíneas, o qual generosamente alimenta mais da metade da população mundial, só perdendo para o milho e o trigo.

Minha querida sogra, D. Neném, fazia um arroz que se comia à escoteiro, de tão bom que era. Gostava de saboreá-lo quentinho numa cumbuca, à moda japonesa, com um fio de azeite extra-virgem e nada mais. Lembro-me também, com muita saudade, dos risotos (já, já falo deles de outra forma) que mamãe fazia aos domingos, para gáudio da família Valente Duarte. Uma vez pronto o arroz, ela o misturava a legumes e a sardinhas longas e gordas previamente amassadas, reservando algumas para a decoração externa do prato, também ornado com rodelas de ovos cozidos de gema dourada. Uma vez retirado do forno e da forma, era ver um objeto de arte (dir-se-ia bizantina), se não fosse coisa gostosa de se comer. Amava também o arroz de carreteiro que ela preparava especialmente nos meus aniversários, devidamente acompanhado (isso sim) com bife à milanesa e maionese caseira, uma delícia celestial. Vou dizer algo que a muita gente poderá parecer um impropério: não me apetece muito o risoto feito segundo a tradicional receita lombarda. O arroz arbóreo, um tanto duro, e a consistência do acepipe, mais para o ensopado, me remetem a imagens não exatamente agradáveis. Deleitam-me muito mais, por sua simplicidade, os risotos que nestas latitudes fazemos, ou “arrozes”, como queiram. O cálice de um vinho de boa cepa, tinto, branco ou rosé a depender do molho do prato, e estamos conversados. O importante na gastronomia, principalmente em sua versão baixa (“low”, para os anglófilos), é o prazer.

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