Bar das Letras Carolina R. Menegon

Apenas mais um Conto – Reflexo.

Ela seguia a mesma rotina, todos os dias a mesma coisa, acordava de manhã, já era bem cedo, o sol nem havia se levantado,  tomava um banho, a demora no chuveiro, aquele ritual feminino, e eu ao observá-la sentia o cheiro, amoras? Talvez? Ela tinha cara de amoras.

Ela tomava um café, acendia um cigarro, café com canela, o cheiro de lágrimas. Ela afagava o cachorro. Esse também triste, que e como eu ficava a espera que ela voltasse no momento em que o sol fosse se deitar.

Saia com aquele andar triste, próprio das moças que sequer se olham no espelho com medo do reflexo, medo da  própria beleza, tão lindas que nem elas deveriam saber a beleza que possuíam, como algo bom que pudesse se tornar mau.

Eu ali sem saber aonde ela ia, o que fazia e por que se demorava tanto a voltar, era apenas um dia, mas me pareciam horas até  a sua volta.

Exatamente às seis e meia, não importa onde eu estivesse, sentia aquele cheiro, e aquele odor indicava o seu retorno. Ali me punha a observá-la, sozinha ela ouvia uma música, sentava em sua varanda e se punha a acender um cigarro e olhar vagamente o crepúsculo.

Aquela melodia, enchia toda a casa, a dela, a minha. A noite caia e novamente vapores de amora invadiam meu sossego.

Havia tanta tristeza, um mistério, por que trazia tanta tristeza no coração? Nunca pude saber. Talvez fossem aquelas marcas nunca cicatrizadas dentro do coração. Uma navalha a despedaçou.

Quase nunca sorria, mas também nunca chorava. Como uma garrafa levando uma mensagem pelo mar, ela também se deixava ir a favor da maré, inerte como uma folha ao vento.

E por que então tanta amargura e desgosto?

Quando os dias estavam cinza, apenas ela se contrastava com o resto da paisagem,  uma cor em meio ao preto e branco, e eu ali, não via mais nada apenas seus olhos a brilhar.

Depois de tanto pensar, depois de noites lavadas em suor, sem dormir, sem despertar, daquela mesma alcova de tristeza eu ouvi um som, tão diferente, sons que não lhe eram habituais.

Achei que eram sinos vindos do alto céu, anjos tocando harpas, e quando voltei a mim notei que daquela mesma janela junto com o cheiro de cigarros de amoras  ouvia uma risada, e olhei e vi pela primeira vez seu sorriso.

Aquele riso o qual não se consegue deixar de acompanhar, o som de anjos na porta do céu. E recordei das manhãs tristes, da rotina sem fim, do cigarro meio apagado, recordei que a olhava todos os dias, da cor em meio ao cinza, e  de todos os cheiros. E então compreendi, e o mistério se desvendou diante dos meus olhos descobri que triste mesmo era eu.

 

“… Os mundos em que vivemos são diferentes, cada pessoa vê os fatos de maneira diversa..a realidade enfim não existe! o que existe são os “óculos” que colocamos diante dos nossos olhos para enxergar ao redor ….os sentimentos que levamos no coração são os olhos de nossa alma….”

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