Bar das Letras Reginaldo Vasconcelos

Adeus, Alencar

Um dia desses o grande Descartes Gadelha, artista plástico cearense de renome internacional, contava entre amigos que estivera em maca vizinha à do o Dr. José Alencar, então Vice-Presidente, em um grande centro de excelência em oncologia no Brasil, o Sírio-Libanês de São Paulo, aonde fora se submeter a exame, sob uma técnica “de ponta”. Ambos esperando o efeito, ou que passasse o efeito de alguma química especial, conversaram sobre as muitas operações que já haviam sofrido, um deles quinze, o outro dezessete cirurgias. Agora, umas duas semanas depois dessa conversa, Alencar finalmente rompeu a barreira entre a vida e a história, cristalizando-se como obra de arte concluída.

Eu gostava dele – não como político, mas como filósofo aplicado – e lhe enviei um parecer jurídico quando um velho amigo seu lhe escreveu, denunciando que havia rumores de fraude em determinado concurso para médicos do Serviço Público Federal, e pedindo que o amigo Vice-Presidente evitasse que um neto seu, que prestara os exames, terminasse preterido por outros candidatos que tivessem “pistolões”. Alencar enviou ao gestor público responsável pelo concurso referido a carta que recebera, recomendando verificar o alegado, por cota de próprio punho na margem do papel.

Com certeza, Alencar esperava um desmentido simples. Esperava que os organizadores do certame lhe respondessem com cortesia, garantindo a lisura do pleito, para que ele repassasse ao seu amigo essa garantia, tranqüilizando-o quanto a isso. Mas a reação do hospital que promovia o concurso foi estapafúrdia, pois o seu diretor procurou a reportagem da Globo, acusando o Vice-Presidente de haver tentado pressionar a instituição para admitir um apadrinhado seu, o que absolutamente não ocorrera.

Surpreendidos por essa tentativa de empalação moral no programa Fantástico, porta-vozes de Alencar resolveram confessar que houvera um erro de assessores, e que o Vice-Presidente nada tinha a ver com isso. Irritado com a Globo, e mais ainda com a descabida assunção de um pecado que não fora cometido, escrevi ao velho mineiro demonstrando que ele não praticara ilicitude, pois que tivera um ato absolutamente probo, e ainda recomendei que ele viesse a público revelar o que de fato fizera, sustentando as nobres razões de tê-lo feito.

José Alencar me ouviu, e me mandou um bilhete de agradecimento, que vou mandar por em quadro a ser fixado na parede.

Reginaldo Vasconcelos.

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