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À sombra do pé de benjamim

No réveillon do ano passado, paramos numa oficina para consertar pela quinta vez o radiador do nosso velho carro, estacionando o carro à sombra de um pé de benjamim para aliviar o calor que já estava escaldante desde o nascer do dia, quando iniciamos a pequena viagem de Fortaleza à Canoa Quebrada.

Ali deixamos o veículo, confiando na habilidade do consertador de radiadores, famoso na cidade, posto que o nome da oficina fazia forte alusão à peça de carros, “Raimundo do Radiador” e ainda confiantes na honestidade do moço, homem forte, de cara doce e amigável, calado, responsável sozinho pela oficina, morador da parte de cima com a família pequena.

À tardinha voltamos para pegar o carro e, constatando que deveríamos aguardar mais um pouco, percebi um senhor moreno, com a pança a descoberto pela camisa verde desabotoada, bermuda cáqui, chapéu de palha grande, chinela de couro, sentado frente à oficina e de costas para a sombra do benjamim, mas ainda desfrutando dela. Cumprimentei o homem e ele mandou buscar uma cadeira para mim, numa cortesia surpreendente, considerando o ar carrancudo que trazia debaixo do seu chapéu.

Soube imediatamente era o que pai do mecânico, e, sentado em frente à sua casinha de porta e janela, do mesmo verde de sua camisa e com janelas brancas, ambas escancaradas, tanto era o calor, observava uma mulher muito branquinha que ia e vinha, num vestido de chita imaculadamente limpo.

Assim, ficamos nós dois a olhar para a sua casa, de parede colada à oficina do filho e conversar uma conversa estranha mas prazeirosa, porque sempre fui muito conversadora mas nunca tinha saltado na minha frente assim uma figura como aquela: um homem simples, do interior, extravasador de sentimentos com uma velocidade que eu nem tinha tempo para emendar as coisas com minhas perguntas curiosas, oitenta e cinco anos de idade, parecendo sessenta, com um colóquio invejável para muita gente que conheço, desafiador do tempo e grato, muito grato por tudo que fez e teve na vida.

Contou que quando conheceu sua mulher, há sessenta anos (bodas de quê, meu Deus?!?), ele tinha sido muito bem orientado pela tia solteirona que morava na sua casa: ” Pedro, mulher boa para casar é aquela que você encontrar na casa dela, e não em festa de terreiro!” E assim Pedro se deu conta de que a tia estava corretíssima, rejeitando todas as moçoilas da cidade que freqüentavam as festas da praça e dos terreiros alheios. Até que um dia, ao procurar trabalho nas redondezas, parou numa pequena casa para tratar com o dono de um milharal e foi atendido pela filha mais moça.

Amor à primeira vista, casaram logo após as formalidades daquele tempo, daquela ocasião, daquela região, e principalmente, do pai do moça. Sessenta anos depois, estavam ali a ver os seus descendentes criados segundo sua lei e a de Deus. E me dizia do seu amor por sua mulher, e me contava da sua inabalável fé em Deus, um Deus maravilhoso, que lhe ensinou seu ofício, que lhe deu o mundo para viver, que lhe ensinou a dignidade, o amor pela familia e o respeito pelas pessoas.

Fotografei o velho e sua esposa tentando mais gravar naquelas fotos não suas feições mas suas verdades desprovidas do mal do mundo.

Sol Di Liddo
09/12/2008

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