Altino Farias Bar das Letras

A Relatividade das Situações

Certo ou errado? Raso ou profundo? Quente ou frio? Vago ou lotado? Decente ou imoral? Rápido ou vagaroso? Tudo depende do referencial. Somente levando em consideração o contexto da situação se pode chegar a uma conclusão.

Ir à Praia do Futuro, em Fortaleza, é exercício de paciência. Encontrar vaga para estacionar, mesa desocupada, esperar o garçom para tomar uma cerveja (que provavelmente estará menos gelada que o desejável), agüentar a criançada correndo entre mesas e espalhando areia para todo lado. Mas ao ir à praia já se sabe de tudo isso, e, relativamente, a situação está dentro da normalidade.

Adoro praia, por isso estou aqui a utilizando como comparativo, mas podia falar, por exemplo, de cena que presenciei na cabine do avião em que viajava. Era noite de lua e outro avião seguia na mesma aerovia e sentido, porém num nível acima do que voávamos. O fluxo de ar gerado pela outra aeronave, que seguia mais lenta, começou a provocar turbulência para nós, e o comandante apressou-se em ultrapassá-la. O nosso referencial era o avião em que viajamos, por isso, na ultrapassam, tivemos a sensação visual que a outra aeronave voava para trás, fato interessante de ser observado.

Outra situação em que se sai de um extremo a outro são as relações íntimas de um casal, que podem variar de uma boa curtição para o cúmulo da perversão, dependendo dos protagonistas, contexto e cumplicidade entre os dois, além do sentimento envolvido, claro.

Mas voltemos às praias. Quando vou com a família a praia mais afastada da capital, procuramos sossego e certa privacidade. Nosso buggy permite que passeemos pela beira do mar em busca de um lugarzinho gostoso e ali levantar acampamento por algum tempo. É normal outro casal ou grupo chegar e respeitar certa distância, estabelecendo-se um tanto além ou aquém de nós. Mas sempre se corre o risco de aparecer um cidadão inconveniente e fincar pé bem do nosso lado. O restante da praia pode até estar deserto, mas…  Neste caso a única solução é mudar de “endereço” imediatamente.

Em Parati há várias opções de passeios de barco, desde escunas com capacidade para cem passageiros ou mais, com toalete, cozinha, bar e música a bordo, até pequenos barquinhos que podem ser alugados por hora. Em passeio ao local, resolvemos, eu e minha mulher, contratar um desses pequenos barcos. Levamos alguns petiscos para tira-gosto, abastecemos a conservadora de bordo com cerveja gelada e zarpamos. Saímos com um roteiro turístico pré-definido, que foi cumprido plenamente. Na hora de fazermos uma parada, decidimos ficar numa prainha deserta e acolhedora ao invés da badalada e famosa que o capitão indicara. Ali ficamos tranqüilos curtindo o sol e o mar, enquanto ele alimentava os peixes com pão. Algum tempo depois outro barco estacionou na mesma praia. Guardou certa distância, mas trouxe música e agitação. Depois chegou outro, parando mais ao largo… Depois mais outro. Antes mesmo que este último parasse totalmente, bradei a todo pulmão empunhando ao alto a lata de cerveja que levava na mão: CAPITÃO! LEVANTAR ÂNCORAS! A PRAIA ESTÁ LOTADA!

Você Também Pode Gostar

Sem Comentários

    Deixe uma Resposta