Bar das Letras Paulo Roberto Coelho Ximenes

A Poça D’agua

É só cair uma chuva mais demorada em Fortaleza, para isso mudar a feição da cidade. As águas tomam conta das calçadas, o trânsito fica embolado, o caos se estabelece na via pública.  A pé, não há como prosseguir; os compromissos se atrasam e os negócios se atrapalham. Que novidade! Vem de longe essa história: desde a minha meninice que a cada sereno, as ruas viram riachos. Vez por outra, ao abrir um guarda-chuva, eu automaticamente me recordo de certas cenas, como foi o caso dos semblantes esfogueados de quatro moças estudantes da Escola Normal Justiniano de Serpa, que esgoelando gritos de terror, davam-se as mãos a cada ronco de trovão; logo depois elas se desgrudavam e saíam saltitando entre uma poça d’água e outra até que novos estrondos as unissem novamente. Lembro-me também do que me aconteceu pelo final dos anos setenta numa esquina da Avenida Heráclito Graça, sob idênticas condições meteorológicas.

Naquele dia, sob nuvens cor de chumbo e no intervalo entre uma chuva e outra, vi-me amontoado a uma meia dúzia de transeuntes, os olhares fixos em direção ao semáforo enquanto um pouco à esquerda, no asfalto, quase à beira da calçada, uma poça d’água nos espreitava. Talvez o buraco (ou depressão no terreno) importasse meio palmo de profundidade por um metro de diâmetro. Os pneus dos carros passavam a quarenta ou a cinqüenta quilômetros por hora, “tirando um fino” nas suas bordas. Uma triscada ali liberaria um efeito irrefragável – um estardalhaço de água voando em todas as direções com razoável poder de alcance. Ser precavido não é pensar no pior. Ser precavido é ser precavido. Recuei, então, três passos sem tirar os olhos daqueles bólidos borrachudos cada vez mais próximos do desastre.

A vítima em potencial seria justamente o sujeito mais bem trajado do grupo, esbelto e alto, todo no linho branco, ruivo, cabelos encarapinhados, óculos à pincinê e barba pontiaguda no queixo, lembrando o Visconde de Sabugo do Sítio do Pica-pau Amarelo. Portava uma pilha de papéis e mantinha um celular grudado  ao ouvido, que àquela época era símbolo de status. A camisa de mangas compridas com suas abotoaduras douradas não escondia o relógio de aspecto caro, e também chamava a atenção, o cinto de couro combinando com a leve tonalidade marrom dos sapatos de bico fino. Qualquer um deduziria que se tratava de um granfino, cujo carro de luxo deu pane no aguaceiro.

Uma camioneta passou raspando.  Desta vez foi por um triz. Não me contive. Bati no ombro do cidadão, apontei para o perigo em e lhe disse: ”O senhor vai acabar se molhando se algum carro triscar nessa poça d’água. È melhor o senhor recuar um pouco!”. Não sei por que cargas d’água ainda me meto a ajudar a quem não conheço. A criatura fitou-me em silêncio, por uns três segundos como quem contempla um tonto. Vi desdém em seu olhar. Como é tosca e gélida a indiferença! Sem arredar um centímetro de onde estava, virou-se novamente para o outro lado, continuou ao celular, como se nada tivesse por acontecer. Nem ao menos se dignou a me esboçar um meio sorriso, que àquelas alturas seria menção de agradecimento. Fiquei sem jeito. Todos perceberam o meu desconforto. Doeu. Foi como se tivesse me dito: “vá cuidar da sua vida, moço, isso não é da sua conta!”

É acosso horripilante, o desprezo; e o instinto de defesa, um mecanismo arguto, pronto para arrebentar. Noutras palavras, é bem próprio do ente humano sentir dificuldade para aluir uma aspiração de castigo contra aquele que o afligiu. Assim, e do nada, surgiu-me o desejo mesquinho da vingança. Sim, esse condenável e desprezível sentimento às raias da violência,  que a gente precisa tanto fazer de conta que ele não existe, mas sabe perfeitamente que ele está ali, vivinho da silva, pronto para qualquer eventualidade. É só cutucar a onça com vara curta.

De que me adiantou a alma policialesca?  Só foi preciso um vil segundo de distração para que me escapulisse ao pensamento o atroz agouro: “Tomara que um pneu desses acerte bem no meio do buraco, pra dá um banho nesse deslumbrado!”.

Vapt! Imediatamente o fato se sucedeu! Um fusca conduzido por um elemento idoso (devia ir pelos seus oitenta anos!) cumpriu os meus votos com magistral punjança; não teve a destreza para fazer o desvio, e espalhou o precioso líquido para tudo quanto foi lado. O “visconde”, por conta de sua indolência levou um banho da cabeça aos pés. Papéis molhados, celular talvez danificado, óculos embaçados; a calça de linho branca, de tão encharcada, denunciava na inconveniente semitransparência, as cores aberrantes dos seus trajes menores. Ali, um palhaço ante o picadeiro. A platéia do outro lado da rua irrompeu em gargalhada; houve até quem puxasse uma vaia.  Espalhafato como esse, eu ainda não tinha visto.

O sinal abriu e seguimos em frente, uma penca de marmotosos, reféns da chuva e do trânsito. No próximo sinal fechado, o barba-de-bode deixando de lado o celular, manteve exagerada distância para uma poça d’água que de tão pequena e rasa não metia medo a ninguém. É a velha teoria do gato escaldado. Um adágio famoso cairia também ali como uma luva: “Seria cômico se não fosse trágico!”. Não sei se o que percebi naquele instante era uma onda solidária ao meu mais recente constrangimento, pois o semblante do grupo minguou para olhares esquivos, e tinha gente se espremendo para não cair no riso; pode ser também que seja fato absolutamente corriqueiro um acidente destrambelhado como aquele causar ânsia de riso em qualquer um que o tenha testemunhado.

O caso era que o cidadão volvido a si, mais parecia um varapau molhado.  Sabe-se lá o que lhe corria pela cabeça naquele momento cocho. Nunca vi um sinal vermelho tão demorado. De esguelha, ele arriscou um vago olhar na minha direção, mas evitei que nossos olhares se encontrassem. Deve ter ouvido do meu pronto silêncio: “Eu não lhe avisei?”.

Paulo Roberto Coelho Ximenes

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