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A Galinha Candanga, ou o Desejo à Cabidela

Há alguns anos, quando morava em Brasília, grávida desejei comer galinha à cabidela. Nunca gostei, mas grávida tem dessas coisas chamadas “desejos”, apesar de que quando engravidei meu marido me puxou pela mão, abriu os armários e a geladeira e anunciou, num tom que eu achei muito déspota para a cozinha: “Está vendo tudo o que está aqui?” É tudo o que vai desejar”! “Certo?” Certo, respondi, sorrindo por dentro e imaginando porque eu iria desejar outra comida que não a nossa de todo dia, ora. Mas ele tava certo no seu receio de ser acordado no meio da noite, ante um repentino desejo de comer, por exemplo, cravos! Ele lembrou que eu, sem saber da gravidez, quis comer milho, pois havia visto uns e,  ele, na sua sabedoria de menino criado no interior, vaticinou: “Estes não prestam!” Aceitei a soberana decisão, fomos para casa  e eu não esquecia o milho amarelinho que eu não comi. Dormimos e as três da manha dei um salto da cama, lembrando de latas de milho na despensa! Fui pega pelo marido na cozinha com o milho fresquinho da lata, escorrendo pelas mãos de uma grávida que ainda não sabia que estava grávida. Voltando à galinha, enchi a boca d’água: “Onde, em Brasília, se vende galinha viva? “Quero à cabidela”. Apesar da promessa de não correr atrás dos meus desejos, ele gostou da idéia de peregrinar pelas feiras livres das cidades satélites. Compramos e voltamos para casa com uma galinha alta, magra, porém pernuda, de cara antipática, mas que valeu um bom preço. Instalei a nova hóspede na área de serviço, amarrei um cordão em uma das pernas, coloquei milho e água perto e me despedi dizendo que ela comesse tudo e dormisse bem. Decidi esperar minha irmã chegar de Fortaleza, e enquanto isso, pela manhã pegava a galinha e saía a passear com ela no parquinho do prédio para ela se distrair um pouco daquele ambiente fechado. Penso que todos me achavam uma estranha: grávida com um barrigão enorme, com um cordão no pescoço de uma galinha preta e vermelha, alta, e, vou confessar, magra, muito magra. É, a emília estava emagrecendo a olhos vistos! Mas quando ela chegou, apresentei a galinha para ela, que já tinha sido batizada de emília (perdão às Emílias com “e” maiúsculo) e contei toda a estória: o desejo, a cabidela, as feiras livres, o impasse, o batizado, a engorda, a decisão, a espera, etc.Minha irmã me olhou fundo nos olhos, lacrimejou os seus e disse: “Como é que você tem coragem de me pedir para matar a emília, depois de tudo o que aconteceu entre vocês?”. Respondi: “Quero come-la amanhã no almoço e você não pode negar um desejo de mulher grávida! Faça, por favor.” ” E com um arroz branco bem soltinho”. No domingo, não entrei na cozinha para o ver o infortúnio da emília, mas na hora do almoço, comi uma galinha à cabidela bem magrinha com meus olhos marejados de lágrimas. Era comendo e chorando, chorando e comendo e minha irmã encostada na parede balançando a cabeça num gesto de pena, cobrindo os olhos de vez em quando para não ver a  heresia.

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