A Equipe do Pelos Bares da Vida foi recebida por Romeu Duarte Júnior para esta entrevista no Bar do Ciço, em 21/12/10. Romeu, arquiteto, professor mestre da Escola de Arquitetura da UFC, foi presidente do IPHAN e do AIB, do qual é conselheiro vitalício, e atualmente faz doutorado em são Paulo, falou sobre luta pela conquista de espaços da arquitetura e urbanismo em nossa sociedade e... De bares. Após esta entrevista, em fins de dezembro, o então presidente Lula sancionou lei criando o CAU – Conselho de Arquitetura e Urbanismo, um dos temas abordados por Romeu. Presentes a esse papo descontraído, pela equipe do PBV: Altino Farias, Attila Vasconcelos e Robson Menezes. Como convidados especiais participaram Roberto Vasconcelos, Eugênio Coutinho e Júlio Augusto Tavares.


Romeu - Quero agradecer a deferência de ser o primeiro entrevistado do Pelos Bares da Vida em sua nova fase.... (Brinde)

PBV- Como anda a batalha pela conquista de mais espaço para a arquitetura e urbanismo em nossa sociedade?

Romeu - A gente está brigando há muitos anos para tornar a arquitetura e urbanismo um direito do cidadão, da mesma forma que a saúde e a educação já são. E tem sido uma batalha difícil porque, infelizmente, arquitetura ainda é um serviço só procurado por quem tem recursos. Não há uma viabilização social da arquitetura e urbanismo, que poderia ser possibilitada pelo Estado, como saúde e educação, e outras atividades que são fundamentais para a vida humana. Essa sempre foi nossa batalha e vai continuar sendo. Mesmo os programas criados no governo Lula e nos anteriores são tímidos quanto aos resultados, pois o conhecimento da arquitetura e urbanismo deveria ser colocado a serviço da sociedade.

PBV- Resultando inclusive numa melhoria de vida das pessoas, uma vez que as comunidades estariam inseridas num contexto mais saudável do ponto de vista arquitetônico e urbanístico...

Romeu - ... E aqui faço uma alusão ao seu pai (Arq. José Armando Farias, um dos fundadores do IAB-Ce e da Escola de Arquitetura da UFC, genitor do nosso editor Altino Farias), que sempre teve essa preocupação, que a arquitetura fosse uma necessidade, que houvesse uma interlocução entre os arquitetos e os poderes estabelecidos para fazer valer essa utilização.

PBV- Como anda a urbanização no Brasil, em termos de ocupação das cidades?

Romeu - 85% da população brasileira vive hoje nas cidades. Somos um país urbano. Dessas cidades quase 90% são construídas sem a participação de arquitetos. Imaginem esse mesmo percentual de pessoas praticando a medicina como curandeiros...

PBV- Saindo do sistema CREA, será que a classe ganhará mais dinamismo?

Romeu - Sim, sempre ficamos de mãos amarradas sobre o que se poderia fazer, assim como os agrônomos, e agora com essa diversidade de especializações na engenharia é que piorou. Agora, com o Conselho de Arquitetura e Urbanismo - CAU, o quadro vai mudar e muito.

PBV- Como funciona em outros países?

Romeu - A habilitação profissional é específica e muito valorizada. Em Portugal, na cidade de Lisboa, um projeto premiado, o Largo dos Ratos, foi embargado pelos vereadores por não estar de acordo com o contexto urbano. A coisa é rigorosa.

PBV- Em se tratando de Europa e todo seu patrimônio arquitetônico a vocação turística insere o arquiteto na sociedade...

Romeu - Isso! Em muitas cidades a arquitetura tem a função de manter a harmonia do novo com o antigo. E aqui podemos ter edifícios mais racionais, menos quentes. A população ganha com isso. Projetos corretos que custam o mesmo valor de um outro realizado sem critérios.

PBV- Fatores como luminosidade e insolação, ligados ao conforto ambiental, influem até na saúde e economia doméstica.

Romeu - Pois é... Tem um bar que freqüento, e lá uma turma de um certo jornal (PBV, risos) fazia um barulho danado. Depois que sugeri ao proprietário um projeto acústico, o barulho deixou de ser ensurdecedor como antes.

PBV- Muitas vezes a solução simples, barata com resultados excelentes que outro profissional não saberia fazer de forma adequada...

Romeu - Exemplo: estamos com um problema no escritório tentando consertar uma casa que foi construída de forma totalmente irregular. É como se um médico operasse alguém com faca de cozinha. Veja bem, o cara bota uma bila na sala e ela escorrega sozinha para a cozinha (risos). É o barato que sai caro.

PBV- Mas aqui no Ceará isso ainda é muito presente...

Romeu - Aqui todo mundo já fez de tudo, sabe tudo (risos).

PBV – E quanto à qualidade dos cursos de arquitetura que surgiram, como o nível do ensino?

Romeu - Eu digo que esses cursos surgiram em decorrência do nosso (CAUUFC) ter medo de crescer. Não existe espaço vazio em nenhum aspecto da vida humana. Quando se cria um espaço vazio logo ele é ocupado. Só após 45 anos é que a Escola de Arquitetura da UFC está ampliando o número de alunos e professores. Como resultado desse receio, surgiram outros cursos, que buscam sempre a equivalência com o da UFC. Eu só acredito em qualquer atividade humana onde haja concorrência, senão a mediocridade impera... Houve sucateamento, mas no nosso caso particular, houve também negligência, falta de desejo e de tesão de crescer e criar um contraponto na própria universidade. É ridículo uma escola de arquitetura que não tem um projeto. Agora tem um projeto político- pedagógico. Tem também um curso de Design, que junto com o curso de Arquitetura e Urbanismo vai constituir o que chamamos de IDEAU- Instituto de Design, Arquitetura e Urbanismo. Isso vai ensejar a criação de uma estrutura administrativa e financeira mais atraente do ponto de vista físico. Vocês já foram à Escola de Arquitetura da UFC? Um dia levei minha mãe lá e ela disse: “Que diabo é isso? Parece grupo escolar!!”. É de fazer vergonha mesmo. Lá em São Paulo, o curso onde faço doutorado tem uma sede, um casarão de antigos barões do café da família Álvares Penteado, que é uma coisa linda. Na cidade universitária, a sede da FAUUSP é uma obra do Vilanova Artigas, tombada pelo IPHAN, marco da arquitetura paulistana. Então, nossa escola, agora, está superando essa fase coitadinha , pobrezinha.

Comentário Eugênio: Na época em que eu fazia agronomia o enfoque era para plantar arroz, feijão, combater o bicudo, criar bode e carneiro. Quem se interessasse por paisagismo, por exemplo, não tinha para onde ir, não tinha cobertura...

Romeu - É difícil hoje dizer quais são os limites das profissões tecnológicas. Nós definimos os nossos, mas não podemos abandonar a trincheira da construção civil, do meio-ambiente, das pesquisas de materiais, pois qualquer isolamento prejudicaria a arquitetura. Com o CAU, teremos que participar em várias frentes senão vamos criar um mundo à parte e isso é o começo do fim. A luta é para expandir a utilização social da arquitetura e do urbanismo.

PVC – E quantos aos projetos particulares seus? Como andam?

Romeu - Sou professor de projeto arquitetônico do CAUUFC desde 1991. Ensino, mas não posso praticar, não posso ter empresa, só posso atuar como consultor, autônomo ou sócio minoritário de alguma empresa e isso não é interessante. Tenho atuado como consultor. De manhã dou aulas, à tarde também e à noite me viro para garantir a cervejinha das crianças, como diz o Aírton Monte. Essa limitação é um absurdo da legislação universitária, principalmente naquelas profissões em que você tem uma relação direta com o “fazer”, ou seja, arquitetos, engenheiros civis, dentistas, médicos, dentre outros profissionais. Como é que um médico vai ensinar procedimentos cirúrgicos se não pratica e se tem apenas uma relação “livresca” com a medicina? Não dá!!

PBV – E o doutorado que está fazendo?

Romeu - Na maior parte, as disciplinas são das áreas de ciências sociais, economia, filosofia. Arquitetura tem, mas é muito pouco. E olhem que são três anos de curso...

PBV- E na graduação regular, como é?

Romeu - Na graduação, a prática é bem presente. São várias cadeiras de projeto arquitetônico e trabalhos a apresentar. Na pós, é como se a arquitetura tivesse vergonha de existir por si e, para ficar em pé, tivesse que ter muletas nas ciências sociais, na educação, na filosofia, para ser reconhecida como saber universitário. Há um ridículo divórcio da universidade em relação ao mercado, em parte devido a isso. Agora, eu não posso deixar de projetar. Como eu posso ensinar a projetar sem praticar? E, além disso, tem a cervejinha das crianças... (risos)

PBV- Por falar em cervejinha, tem outro assunto que queríamos abordar aqui. Quando não está trabalhando, o que gosta de fazer?

Romeu - No segmento “Ócio” da coluna do Jocélio Leal no “O Povo” todo mundo faz coisas magníficas. Tem um que coleciona soldadinhos de chumbo, outro junta carteiras de cigarro antigas, outros viajam, ouvem música... Eu gosto é de beber com os amigos. E outra coisa boa é conhecer os botecos da cidade, expandir essa rede etílica, porque se tem uma cidade desconhecida no que diz respeito a botequins é Fortaleza.

PBV- Como assim?

Romeu – Um amigo meu diz que os limites de Fortaleza são: ao norte, Oceano Atlântico; ao sul, Antonio Sales; a leste, Estados Unidos; a oeste, Rui Barbosa... Não!! Barão de Studart. Aí pensamos, por exemplo, o que estará acontecendo no Montese? De repente, pode ter uma boa proposta de bar por lá. No Rio, há quase vinte anos, tem o “Rio Botequim”, um guia de bares e botecos atualizado anualmente. Tem tudo lá, é só ir numa livraria e comprar. Em Minas há um evento anual no Mercado Central com participação dos botequins. Em São Paulo há diversos guias de restaurantes, mas botequim lá não pega, o povo não se dá com o negócio... Aqui eu propus à Prefeitura que fizesse um inventário de botequins.

PBV- É idéia do PBV fazer um guia dos bares que visitamos...

Romeu - ...E isso poderia se transformar num livro com informações importantes, atualizado todo ano. Numa cidade de biriteiros e turística como Fortaleza, ora, tem que ter!!

PBV- Hoje temos alguns botequins bacanas, sofisticados e caros...

Romeu – Esse é o dilema: ou aumentamos a base biriteira ou levantamos a torre da exclusão. E tem aqueles que estão com o bom movimento em seu bar e por isso aumentam os preços. Isso se chama “crescer os olhos”.

PBV- O fortalezense percebe e migra para outros locais...

Romeu - É. Fora daqueles “limites da cidade” há uns bares legais. Tem o Camocim, o Fabiano... Na Praia de Iracema tinha o Estoril, o Cais Bar... Depois sofisticaram e elevaram os preços, e aquilo se transformou na Disneylândia dos bares. Aí vieram as drogas, a prostituição e os turistas fizeram a festa. Logo acabou com tudo.

PBV- Acabou a Praia de Iracema, mas sempre surgem novos points.

Romeu – É. Vejam a Tôrres Câmara. Na esquina com Ildefonso Albano tem o Aírton Bodó, um dos melhores self-service da cidade e cerveja geladíssima. Na esquina com a Carlos Vasconcelos há o “Pioneiro”, que vende frango assado. Lá tem um espetinho que ele bota dentro dum saco plástico com paçoca e faz assim (mistura tudo). Mas, cuidado, que o cara é bruto! O Caio, do Cantinho do Frango, vai é muito lá comer do espetinho. Mais na frente tem o lava-a-jato do Tassim. Ali só tem “cabeça de chave”, biriteiros brabos. Seguindo, tem o “Cantinho do Frango”, que está vendendo seiscentos frangos num domingo, sem falar nos pés-de-cana que andam por lá, dos mais profissionais da cidade. O Bar do Papai dispensa comentários e o Bar da Mamãe, que fica em frente, pega a rebarba. Mais para frente, o Divina Comida, que é de domingo a domingo direto, e o Alpendre (North Shopping e Iguatemi). Dobrando à esquerda, na Rui Barbosa, o Boomerang, que nós chamamos de Canguru. Como se vê, formou-se um pólo gastronômico nesta região.

PBV – E com relação aos bares que marcaram época, do que você lembra?

Romeu - Bom, eu comecei a beber com tenros 16 anos no Barbra’s da Treze de Maio, sábados e domingos. Tomava vodka. Bebi tanta vodka que estourei minha cota. Quando menino, ia ao Flórida Bar com meu pai. Políticos, juízes, comerciantes, raparigas e barulho. Eu adorava aquilo e pensava: “Vou ser igual a esses homens aí. Infância, passa logo!”. Tinha também o Bar da Brahma, perto da Igreja do Rosário. Naquele entorno da Praça dos Leões era quase tudo botequim.

Comentários gerais dos presentes sobre bares e possibilidades...

Romeu - Na General Bezerril, depois do Raimundo dos Queijos, tem um bar que existe a uns cinqüenta anos e ainda está lá. É especializado em cachaça. É cachaça com siriguela, se não tiver, vai tamarindo, senão vai uma cajá. Meu pai me levava lá. Tomava uma caninha e pedia para mim um Guara-suco. No Centro tinha também o Peixe Frito, um bar entre a Barão do Rio Branco e a Senador Pompeu em meio a uma galeria que só tinha duas mesas. Aí chegava um cara e pedia: “um comercial e uma bolinha de carne”. Sabe o que era? Uma cana e uma cajá umbu (risos).

PBV- Completando em relação aos bares do Centro tinha também o Cury e o Belas Artes... Senadorzão, Clube do América, Santa Cruz...

Romeu – Agora saindo do Centro. Entre dezembro e janeiro, a gente botava calção e camiseta e ia para a Praia de Iracema pegar só o respingo das ondas do mar nas ressacas. Tomando umas com ostra. Eu era morto e vivo no Estoril. Morava na Base Aérea, pegava um ônibus e ia bater na Praia de Iracema. E voltava lá pelas duas da manhã, na boa. Outro bar que freqüento desde o final da juventude é o do Seu Aírton, que hoje é na Tomaz Acioli. E já se vão vinte e cinco anos. Teve um dia que ele me chamou para ir no Canhoto, descendo a João Cordeiro, depois da Monsenhor Tabosa, na direção do mar, segunda rua à esquerda. Nesse tempo lá se comia galo-do-alto, dourado, pescada... Naquela época ninguém conhecia esses peixes. Hoje todo mundo come, e é caro!! E lá era tudo simples, com poucas e gostosas opções. Eu não gosto de restaurante com 500 mil pratos...

Comentários gerais...

Romeu – Tinha o Cirandinha, pena que era mau posicionado, mas a costela mindim de lá era conhecida. E o Bira, ao lado, tinha carneiro, tanto assado quanto cozido, era espetacular... Tinha o Zé Augusto na Parquelândia...

PBV – Só continuando pela Praia de Iracema, mais na frente tinha o Madrugada... a gente saía do Comercial e ia para o Madrugada...

Romeu – E tinha também o Deó, o Sereia... Aqui você tem o Ciço, o Pedim, o Mercadinha Marly, mas passando a Pontes Vieira eu não sei... eu sou do tempo que freqüentar botequim era coisa de vagabundo.

PBV – Mas a convivência de botequim era sadia. Você bebia de igual com pedreiros, motoristas de táxi e tal... Todo mundo era respeitado e mais, eles tinham muito o que nos ensinar.

Romeu – O Benfica está se transformando num pólo gastronômico. Tem a Dona Chica vizinho à Economia, tem o Assis, o Buraco do Reitor, o grande Chaguinha. É bom que se freqüente, por exemplo, o Bar do Zé Bezerra, no Parque Araxá, que tem samba de ótima qualidade, para que o pessoal que vem do “quadrilátero de ouro” possa trocar energia, ouvir samba e acabar com esse apartheid que existe em Fortaleza.

PBV – E o Luís, é um desbravador de bares...

Romeu - É um peregrino, um andarilho, um pioneiro. Ele vai, mas nunca sabe se volta (risos).

PBV – Agora vamos encerrar o papo, agradecendo ao Romeu pela entrevista e tomar umas, né?

Romeu – É, agora é o recreio. Eu que agradeço ao PBV pela oportunidade desta entrevista.